Opinião

A democracia e os delírios da batota

Arlindo dos Santos

Jornalista

A pergunta é incomodativa. Dirigida às elites políticas cujo protagonismo nas comunidades, faz convencer que dominam tudo e todos. Questiono então. Que é do povo heróico e generoso de que, sem pudor, se têm servido?

12/09/2021  Última atualização 07H50
Onde pára o que foi incorporado no Hino Nacional emprestando-lhe grandeza e tonalidade popular, o que lutou pela democracia e a quem prometeram igualdade de direitos? Os brasileiros interrogar-se-iam assim. Se escafedeu o povo heróico? E a democracia, que é feito dela afinal? Respondo que o povo está aqui mesmo, ao nosso lado. Miserável e faminto, catando lixo para se alimentar mas, inquietando os oportunistas políticos, de ouvidos apurados e olhos bem abertos.

Sem disposição nenhuma de ser novamente enganado. Espalha o manifesto pelo país fora. Venha o logro por via do argumento exclusivista, xenófobo e racista, da mentira descarada ou da trapaça desavergonhada. Quanto à democracia, apesar de sempre adiada, está também no seu canto, a esperar pela sua vez e hora. Igualdade e democracia plenas vão aguardando eternamente ao lado do povo.

Ano após ano, com o mesmo grau de mentira ouvida e a mesma paciência suportada, a ouvir falar de projectos absurdos, a maioria sem base de sustentação, sem pernas para caminhar. O infeliz povo heróico circula no espaço cercado pela sua generosidade, aguentando sem trabalho nem reforma, sem saúde nem escola (o mínimo que as pessoas necessitam), enquanto o sonho da democracia, a ser construído na base de toscos desenhos, se dilui em deplorável retórica política que, a menos que laboremos todos em grave erro, só evidencia um propósito. Dominar o povo e neutralizar a dita cuja democracia, em favor de interesses individuais ou de pequenos grupos, invariavelmente formados nas mesmas coutadas.

Ora, não foi isso o que foi combinado no início e prometido ao povo. Chegamos pois ao momento de testar a integridade e maturidade dos democratas indígenas de todos os matizes e tendências políticas, para podermos, em consciência, pugnar por uma democracia de verdade e fazê-la, assim, prevalecer na sociedade civil.

Nestas circunstâncias, nova pergunta me ocorre. A democracia não é o predomínio da vontade da maioria? Ou será essa, que parece andar às avessas e que, face ao momento crucial de emergência mundial criada pela pandemia da Covid-19, impede que os governantes que falam diariamente (ou quase) da democracia participativa consultem quem neles votou, tornando-se únicos mandantes, julgadores e executores das decisões sobre a vida e a morte dos seus semelhantes?

É uma situação que no caso da política nacional, mormente nas questões relacionadas com o pleito eleitoral que está aí a chegar, começam a ser mostrados lapsos e omissões da mesma índole, notados nas decisões, no controlo e na transparência dos actos. Vão sendo notados vestígios de actos que se opõem à lei e aos comportamentos republicanos, perigosos alguns deles, salientando-se o espectro da inverdade e da batota, cujas consequências não podem deixar de incomodar a sociedade. Começam a emergir, a afligir e a criar dúvidas mesmo àqueles que votaram na maioria mandante. E sobre batota, ocorre-me ainda o seguinte.

Fui educado a fugir, a hostilizar mesmo, os jogos das cartas. Não dos inocentes como a "sueca” ou as "copas” que não passam de jogos de diversão. Ao invés, no jogo forte que se tornou actividade comercial de nível internacional, coexistem a fraude e a trapaça, significando que no jogo em que se aposta dinheiro (dinheiro é força e poder e é também aposta no jogo político), seja ele o da pedida ou o da panza, seja ele o mais sério e forte de todos, como é o jogo político.

Não sendo iguais, assemelham-se nalguns aspectos, tais como o azar que é intrínseco a todos eles. A arte que se torna vício com a introdução dos bluffs nos lances, a malandrice das cartas viciadas, os baralhos com as suas manilhas e duques, seus valetes, damas e reis, com os ases sempre no topo de grandes cartadas nem sempre jogadas com métodos limpos, podem originar perdas em vez de ganhos, conduzindo muitos viciados, (no caso da política, muitos dirigentes) do apogeu da glória à estrondosa queda no abismo, assim a sorte o determine.

A batota pode fazer extraviar prestígio, poder e património e leva à perda da dignidade que pode levar ao suicídio. Por isso se recomenda o bom senso aos jogadores. Batoteiros ou políticos de profissão. Batota significa trapaça no jogo, é o não cumprimento das regras previamente estabelecidas nesse jogo perigoso, e quando penso na eventualidade dela ser transportada para a política, uma disputa em que se exige lisura e decência, não posso, naturalmente, ficar tranquilo.

Sabemos todos, por óbvias razões, que a mentalidade dos políticos angolanos, os do partido no poder ou os da oposição, na sua grande maioria, sublinho maioria porque não são todos, foi formatada num sistema baseado no músculo das armas. O Governo, como estado totalitário que é, (por muito que se fale do Estado Democrático e de Direito, não pode fugir ao título) não ouve nem vê o que é evidente, excepto o seu programa, implementando-o com a razão da força.

Observa-se em detalhes como a verba mais que suficiente para a defesa e insuficiente para o desenvolvimento da sociedade que deveria legitimamente incluir os alicerces da democracia. Refiro-me aos parcos valores alocados à educação e à saúde. Como pensar assim em democracia? Em situação normal em que o cérebro se impusesse ao músculo, no próximo ano, o mote eleitoral poderia ser bem diferente.

Seria bom porque finalmente se atingiriam alguns objectivos favoráveis ao povo, alcançaríamos inteligência diferente da que nos habituamos a usar. A educação é uma política de paciência, perseverança mas de frutos garantidos a médio e longo-prazos. Deveríamos começar a cumprir a caminhada nessa via a seguir. E é, tem de ser, seguramente por aí, queiram ou não os que teimam em ver Angola de viés, que temos que ir caminhando.
Cumprida mais esta etapa na rota da cidadania, despeço-me dos meus leitores e amigos. Estarei convosco no domingo, à hora do matabicho.

Lisboa, 11 de Setembro de 2021

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