Opinião

A confraria dos espertos

Adriano Mixinge

Escritor e Jornalista

Abrimos a porta e deparamo-nos com um recinto hermético. Em vez de encontrarmos uma floresta de letras encantadas descobrimos uma realidade paralela: ela tem um campo de armadilhas reais, uns órfãos a deambularem num deserto de ideias, um feixe de preceitos sagrados, umas matrioscas com fantoches e, também, alguns fantasmas que, mesmo estando ausentes, agem como se fossem guardiães das imperfeições convenientes.

04/05/2022  Última atualização 07H20

Estupefactos, apercebemo-nos que não tínhamos chegado ao paraíso das criações, nem ao reino das virtudes, nem ao casulo dos feitiços e muito menos ao lugar das utopias milenares que nos permitiriam um dia sermos flores e no amanhecer seguinte nos metamorforsearmos em qualquer outra coisa que nos apeteça ser com tal de inventarmos um novo país: onde quer que haja um esperto tudo deve permanecer inamovível e o que deve vingar é a astúcia, a velhacaria e pouco mais.

Quem ainda não é formalmente membro da confraria dos espertos não se preocupe, já que ser ou não ser não é uma questão relevante. Na prática a confraria funciona sem limites nem fronteiras e nela há dilema existencial que deixaram de fazer sentido: a única coisa que conta é a obediência cega ao status quo e à ordem imperante, qualquer "desvio mínimo” é considerado coisa de pirómano.

Há quem diga que é possível reunir-nos num lugar só, mas está comprovado que não: ninguém sabe exactamente qual o nosso número e estamos espalhados por todos os lados. Entre dicionaristas, modelos, bonzinhos, wikipedistas,  irreverentes e tamodianos, entre outros, nós podemos chegar aos milhares: divertimo-nos ou sobrevivemos, - é algo que não importa muito -, socorrendo-nos das espertezas que sabemos fazer com mestria e não temos pejo nenhum em nos gabar que, nisso, somos "experts”.

Declaramos ser uma confraria, mas, mesmo sendo a esperteza um credo respeitado por todos, até isso ninguém tem absoluta certeza: a fé nas espertezas sofisticadas e legais protege-nos inquebrantavelmente, elas servem-nos para impor ordem às hostes ou aos circunstanciais rebeldes.

Quando alguém teima em não nos ver, em não nos ler, em não nos ouvir ou em não nos venerar, com as espertezas debaixo do braço, peregrinamos às rádios, à televisão, aos jornais e às redes sociais: entendemos que a consagração é uma pedra ineludível para aceder ao espaço político e as espertezas são o veículo que utilizamos para atingir este fim.

Maioritariamente, temos as nossas preferências políticas, partidárias e estamos estruturados como se fôssemos umas matrioscas: de longe ninguém pode adivinhar o que ocultamos. De perto, quando nos revelamos ou nos conhecem melhor é fácil ver que temos bem marcadas as rugas que a subjectividade fez nos nossos rostos e nas nossas almas devastadas pelo silêncio, pela autocensura, pelas estratégias a meio termo, pelo debate inconsequente e pela preguiça.

"A esperteza é a nossa arma de combate” é o slogan que nos congrega e nas nossas criações artísticas, literárias e políticas, assumimos – de um modo geralmente afunilado, por certo - que somos nacionalistas, patriotas, democratas e visionários, mas actuamos como se fôssemos o oposto: quem nos apontar o dedo sairá sempre escaldado, com o bom nome e a reputação incinerada e ainda, por cima, por ser inepto será sempre o culpado da sua própria desgraça.

Ainda que não o pareça, a confraria dos espertos é um dos maiores enigmas pós-coloniais: as árvores da sua floresta de letras constituem o seu maior património, aquele que testemunha o lado mais puro dos seus membros. As imperfeições convenientes e rentáveis só para alguns, o seu maior freio.

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