Opinião

A Coincidência deste Dia!

Manuel Rui

Escritor

Saí de casa para revisitar a grande bandeira nossa que se desfralda na fortaleza beijada pelo mar e as conchas e búzios que a espuma da vaga amena traz à areia minha, a minha areia toda marcada de pegadas de crianças em nome de quem senti a Dipanda que muitos estão a contar e se repete numa narrativa poética de mujimbeiro ou griô, os contadores de nossa ancestralidade africana que atravessou o mar da morte escrava e sobreviveu com Zumbi dos Palmares, o samba e os blues de New Orleães.

11/11/2021  Última atualização 08H30
Esta minha crónica literária é publicada à quinta-feira. Então, calha-me esta coincidência com o dia 11. O dia do "Içar da Bandeira”, poema profético que Agostinho Neto escreveu no cárcere fascista do Aljube, Lisboa, Portugal.

É uma coincidência da emoção com uma data que marca a história de Angola, da África e do mundo. Porque Neto falava que só seriamos livres quando acabasse o apartheid. E Angola foi a linha da frente. Fomos à OUA mostrar mercenários feitos prisioneiros.

A conotação racial tão evidente nos karkamanos de que nunca os brancos poderiam ser vencidos caia por terra. Mulheres brancas sul-africanas faziam manifestações para que seus maridos, filhos ou parentes abandonassem a guerra contra nós. A OUA teve de se render e reconhecer o nosso Estado. Depois, na ONU, o privilégio de ver subir a nossa bandeira.

Mas antes, a Dipanda, proclamada sob o ruído dos canhões e blindados de Mobutu.
Tudo se fazia com pressa e sobre uma montanha de incertezas colocávamos uma imensa espiral de convicção. Tínhamos de proclamar a independência naquela noite-madrugada de 10 para 11 de Novembro.

Felizmente, nos últimos tempos, o Prof. Jubilado da Faculdade de Direito da Universidade Agostinho Neto, Fernando Oliveira tem pronunciado, em sagaz detalhe, os factos que antecedem a nossa independência, a criação jurídico-constitucional emergente, a maneira como Portugal com a casa por arrumar, após a revolução dos cravos, não consensualizava a questão Angola.

Foi uma saída vergonhosa após quinhentos anos de vergonhosa ocupação que mandou manchar o mar com o sangue dos nossos antepassados arrancados à terra para o sistema esclavagista.

Embora a independência tenha sido proclamada apenas por um dos movimentos de libertação, hoje, é daquelas coisas que não tem lado nem cor partidária. É de todos. Como são os símbolos nacionais.

Mas naquele dia, como escreveu Agostinho Neto, "Qualquer coisa se movia na terra,” (Içar da Bandeira). Era isso mesmo. Todos tínhamos uma vertiginosa força anímica.

E palavras de ordem como "Um só povo, uma só Nação,” depois transcritas para hino, contribuíram para que nas escolas, os que hoje já serão idosos, intuíssem esses valores que nos alcandoraram a um país sem tribalismo mas com um salutar regionalismo competitivo, o milho da minha terra é melhor que o da tua…mas todos são milhos da nossa terra.

Os televisores que foram distribuídos pelos subúrbios para que os mais pobres, que nem sabiam o que era televisão, pudessem seguir a festa da Dipanda, consistiam numa intenção inclusiva.
Eramos jovens. Não éramos perfeitos. Ou copiávamos ou inventávamos à pressa. Tínhamos as nossas imperfeições, mas o que fizemos era menos imperfeito do que nós.

Eu disse no hino da alfabetização assim: "só é livre quem estuda e ensina para aprender.” Estudávamos com os factos e éramos todos os dias ensinados pelo povo.

De repente, começou a demandada desde o sapateiro ao médico. As lojas fecharam. Os mercados também. Não éramos ilha nem estávamos bloqueados. Copiámos mal com as lojas do povo. Os cartões de abastecimento. Aldrabavam-nos nas importações.

Infelizmente, empurraram-nos para uma guerra que era a continuação quente da "guerra fria” post segunda guerra mundial. Se tivéssemos conversado em vez de fazermos guerra tudo teria sido diferente. Isso é bom dizer agora…mas naquele então cada movimento de libertação transformara-se num movimento de exclusão e cada um era o outro quando afinal éramos só nós, Angola, angolanos.

O travo parece amargo, às vezes, quando nos lembramos dos que de boa fé se bateram e deram a vida por um ideal.
Mas, hoje, para mim é agridoce o travo quando vejo multidões de batas brancas, com milhares de crianças a caminho das escolas como pássaros a voarem para o ninho. Aí já posso cantar a do Waldemar Bastos…”Já vi Angola independente.” Por coincidência neste dia 11, quinta-feira, lugar da minha crónica com os impulsos silenciosos do meu cágado a indicar-me a felicidade da imperfeição que não se cansa de desaperfeiçoar-se.

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