Opinião

A classe média africana

Alguns meses atrás, na Zâmbia, fui para Kaunda Square, um bairro da capital zambiana, para cortar o cabelo. Passei parte da minha infância em Kaunda Square. 

01/02/2019  Última atualização 11H46

Decidi visitar a casa de uma colega que também foi nossa vizinha. A Betty tinha uma escola. Enquanto conversávamos sobre os melhores métodos de ensino (a Betty tinha adoptado um sistema vindo da Califórnia, que garantia que as crianças lessem e escrevessem com rapidez), na sala as crianças estavam a acompanhar a CNN. Saí da casa da Betty e fui para um outro vizinho que sabia todos os detalhes da Casa Branca, já que tinha lido todas obras sobre a "mbwanja" do reinado do Velho Trump. Sendo vegano, a filha do meu amigo preparou-me um grande prato, que incluía quinoa e abacates: a menina viu a receita no YouTube e depois, através do Google, descobriu que havia um centro comercial na Manda Hill que vendia produtos como quinoa. Quem ver Kaunda Square de longe não pode imaginar que há tantos jovens que dominam as novas tecnologias. Em geral, uma boa parte da população de Kaunda Square passou a ter valores da classe média. 

Há países na África anglófona - como a Zâmbia, Quénia, Zimbabwe e Ghana - que um dia vão surpreender o mundo. Estes países poderão ser grandes potências, porque possuem uma classe média que se estende ao Ocidente. O político zambiano, queniano ou zimbabweano que pretende ter uma certa credibilidade tem que dar palestras e manter encontros com os conterrâneos em Londres, Nova Iorque, Atlanta ou Washington DC. Estes membros da diáspora africana influenciam profundamente a política dos países de origem, doando fundos aos partidos políticos, mantendo redes sociais com muita influência e, claro, mandando dinheiro para os  parentes - alguns passam à classe média graças a estes fundos. 

Poderia citar a Nigéria e o Congo Democrático na mesma lista dos países que irão surpreender. Infelizmente, estes dois países vão sempre ser gigantes desajeitados, com profundas contradições, que vão impedir o tipo de avanços que vejo na Zâmbia, Zimbabwe, Ghana e Quénia. A grande fortuna da Zâmbia não é o cobre ou mesmo o turismo; estes poderão trazer milhões que irão alimentar a construção de grandes projectos e até mesmo uma certa corrupção e falta de transparência. A fortuna da Zâmbia é a existência de uma vasta classe média na diáspora, que vai transmitindo valores chaves para o desenvolvimento do país. A classe média no país também é bastante dinâmica e cada vez mais influente. 

Em Lusaka, recentemente, estive numa festa para marcar o aniversário de um académico que também é empresário. A festa foi na sua fazenda fora de Lusaka. Aqui havia jardins com fontes de água, flores, etc. Uma boa parte dos convidados tinha vivido no Ocidente ou frequentado universidades de prestígio. Estas figuras tinham absorvido profundamente atitudes da classe média, que são a chave para a mobilidade social, como adiar a gratificação: em vez de gastar os recursos já agora, alguém tinha que poupar e investir na formação. Notei, também, em muitas pessoas, uma atitude em que as pessoas estavam a preparar-se para poderem singrar em qualquer parte do mundo. Há, na Zâmbia, escolas privadas onde as crianças aprendem Francês, Português, Mandarim e até mesmo Árabe. Há, aqui, gente que sonha ter filhos para competir com os melhores da Finlândia ou outros países no Ocidente, que dão muita importância ao capital humano. É que estas são famílias que já têm gente a singrar em várias partes do mundo. 

Não obstante os argumentos inflamados que têm seguido as disputas eleitorais na Zâmbia, Quénia e Zimbabwe, no fim tem sempre havido uma espécie de compromisso que acomoda várias sensibilidades. As elites nestes países precisam mesmo de uma estabilidade social. O Zimbabwe sobrevive, em parte, das remessas de dinheiro da sua diáspora no Ocidente. 

Na Zâmbia, os zimbabweanos têm a reputação de serem grandes construtores/pedreiros. É que estes obreiros têm construído casas encomendadas por membros da diáspora que querem as mesmíssimas casas como no Ocidente. Há sectores na Zâmbia que são réplicas de Atlanta - a cidade nos Estados Unidos com um elevadíssimo número de zambianos. Isto significa que o Ocidente veio ao lado dos guetos de Lusaka; a boa vida não é só vista na televisão. Sim, a elite está rodeada de guardas e muros gigantescos; porém, as empregadas, os guardas e parentes têm visto o estilo de vida daqueles que ascenderam na vida. Lá, no bairro, já não se gasta tanto dinheiro nos bares; os miúdos por lá também crescem assistindo os mesmos programas de bandas desenhadas que os miúdos em Londres. 

Curiosamente, esta existência de enclaves da classe média nestas capitais africanas está a diluir a componente étnica em determinar aquela deferência ou o voto. Hoje os eleitores nestes países estão muito interessados nas qualificações académicas dos políticos, assim como no seu passado profissional. Conheço um condomínio grande e de muito luxo em Nairobi que é gerido por uma senhora de origem somali que foi directora de uma multinacional na Holanda; esta senhora pode, sim, ser eleita por gente que não seja da sua etnia, mas que valorizam quem é eficiente; e se não cumprir as promessas eleitorais, nas eleições seguintes é penalizada. 

Em Lusaka e Harare há, também, enclaves da classe média com gestores cuja principal qualidade é garantir a alta qualidade dos seus habitantes. Quem vai querer representar os bairros destes condomínios tem, também, que assegurar aos eleitores que consegue melhorar as suas vidas.


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