Entrevista

“A capacidade de perdão dos angolanos é impressionante”

Silvino Fortunato

Trazia 27 anos de idade quando pisou pela primeira vez o solo angolano, em 1971, através do aeroporto internacional de Luanda, de onde zarpou direitinha para a longínqua região da Damba, no Norte de Angola, para cumprir o “sacerdócio misericordioso” de enfermagem. Já aposentada, com 72 anos de idade e 50 de missões compadecidas, a Madre Inês Basquerotto recolheu-se no Songo onde jura terminar os dias de vida que Deus lhe está a conceder, longe da Itália, terra de seu nascimento. Muito conhecida e referenciada na sociedade uigense, o Jornal de Angola a procurou para relembrar a sua trajectória missionária e as guerras civis testemunhadas por ela nestas terras de Mwene Kongo.

13/02/2022  Última atualização 05H20
Madre Inês Basquerotto © Fotografia por: António Capitão | Edições Novembro
É frequentemente apontada como uma das figuras incontornáveis da história recente da província do Uíge. Porque é que as pessoas falam muito da Madre Inês e que obras ergueu para merecer essa grandeza?

Cheguei a Angola em 15 de Dezembro de 1971. O primeiro impacto que tive com Angola foi quando saí do aeroporto de Luanda e me deparei com uma multidão de crianças. É uma realidade que na Europa não via. Pensei logo "Angola é rica em crianças”. Pouco depois viajei para a cidade do Uíge e daí para a localidade da Damba, onde comecei a trabalhar no hospital, no dia 22 de Fevereiro de 1972. É uma enorme felicidade trabalhar como enfermeira, que é a minha profissão, servir as comunidades, sobretudo pobres que marcavam a Damba daquela altura.
Essa realidade coincidia com a vocação da minha congregação "Irmãs da Misericórdia”, sobretudo virada para as crianças. Na Damba encontrei muitos cristãos. Parecia-me que cem por cento da população era cristã. Uma população muito religiosa. Isso me levava a trabalhar à vontade, sem receio de que alguma coisa pudesse acontecer nos primeiros dias da minha estada nestas terras. Era um povo bastante feliz. Mas quatro anos depois a guerra do período de transição modificou tudo.


Que confissões religiosas existiam, na altura, na Damba?

A par da Igreja Católica havia também a Igreja Baptista, com a qual colaborávamos muito. Essa igreja era dirigida por uma mulher, cujo marido era católico. A pastora Isabel Tumbu era uma mulher formidável, bastante alegre e interventiva no trabalho com as comunidades. Nos primeiros quatro anos trabalhei na Damba com o padre Hortênsio, o frei João e o frei Fidêncio. Trabalhei com esses missionários, todos, já falecidos. Quando, muito depois, fui transferida para Maquela, trabalhei com o frei Mariano, que morreu o ano passado (2021) e o frei Jorge, que morreu também, de acidente aeronáutico em Mbanza Kongo. Do resto já não me lembro.
Fiz 50 anos de trabalho sacerdotal. Recebi misericórdia da parte de Deus. Ele foi muito bom e muito misericordioso comigo. Se eu recebi misericórdia da parte de Deus, tenho de ser misericordiosa com os outros. Agora estou aposentada, desde o ano passado. Mas continuo com as minhas tarefas de assistir aos que me procuram. Eu procuro por aqueles que podem me dar medicamentos com os quais assisto aos necessitados que me procuram. Trabalhei na Damba, em Maquela do Zombo, no Uíge, e agora estou aqui no Songo. Em todos estes lugares sempre trabalhei na pediatria. Vi muita gente, que hoje está adulta, a nascer. Ajudei a nascer muitos homens e mulheres desta terra maravilhosa. Muitos estão ou já serviram o seu país na mais alta estrutura. Uma dessas pessoas foi o então governador Sérgio Luther Rescova, que assisti a nascer na Damba. O gesto de assistir o nascimento de crianças parte o coração. Sempre que saio vou sendo acenado por pessoas que dizem: "Quando era criança e doente esta madre me tratou até curar”; "A minha mãe me disse que foi esta madre que lhe ajudou a nascer”. Muitas coisas que me contam, já não me lembro.


Também ia às aldeias em trabalhos de parto?

Trabalhei com muitas parteiras tradicionais, que, não conseguindo ajudar nos partos em casa, vinham ao meu encontro nos hospitais. Eu não ia às comunidades ajudar nos partos. Elas é que iam aos hospitais onde eu trabalhava. Continuo a visitar os pacientes nos bairros, sobretudo as pessoas idosas. Continuo a tratar, até agora, crianças e adultos afectados até com tuberculose. Eu ajudava a irmã Rosa no tratamento da tuberculose porque era ela a especializada em tuberculose. Ela trabalhava no Sanatório.


A Cáritas me dava comida, que eu controlava porque era apenas, e somente, para crianças desnutridas. Foram muitas crianças salvas pelas minhas acções. Salvei muitos adultos e muitos deles ainda continuam em vida. Todas essas acções caritárias não foram feitas por mim, mas por Deus. Era Ele que me guiava para isso. O mundo vive de pequenos gestos. Vive do pensamento de que hoje estou, amanhã estará o outro.


Sempre esteve apenas ligada à enfermagem?

Além de enfermeira, trabalho também com a promoção da mulher. Agora estou a trabalhar com um grupo de mulheres no âmbito da emancipação. Estou a trabalhar com perto de 100 mamãs, em termos de formação humana, religiosa, cristã e doméstica.


"O povo daqui não me gosta, me ama”

Há dias houve uma festa em sua homenagem…

Domingo fizeram uma grande festa, uma belíssima surpresa para mim. Por aquilo que o povo fez para mim, chego a conclusão que o povo daqui não me gosta, me ama. Foram muito sensíveis e muito generosos para mim.
A nossa congregação formou muitos leigos, por exemplo pessoas casadas e solteiras que hoje assumiram responsabilidades no nosso estilo de vida, que é o de ajudar os pobres, visitar os doentes. Em reconhecimento ao que fizemos, ao que continuamos a fazer, a presidente do grupo de misericórdia e mais outras pessoas como a Ana Paula, a esposa do jornalista José Bule [actual director provincial do Bengo da edições Novembro], que cresceu no convento, organizaram tudo, porque me disseram: "Te amamos muito”. Foi em reconhecimento do trabalho que fizemos para o povo, que elas dizem ser bom. Esse reconhecimento tem sido recorrente mesmo nas comunidades. Olha, eu tenho hoje 33 xarás aqui no Uíge. Trinta e três mulheres levam o meu nome, Inês. Três destas levam o meu nome completo, são chamadas Inês Basquerotto, o meu nome completo. Duas se chamam Inês da Misericórdia, assim chamadas a meu pedido. Várias Inês, a quem dei o nome, vivem quase por todo o Uíge e fora. Lembro-me das que vivem aqui no Songo, onde tenho cinco, em Maquela e no Uíge desconheço o número. Por isso ninguém me pode mandar ir embora de Angola, estou enraízada neste maravilhoso país, que vê agora os meus 72 anos de vida.


Trabalhou muito pouco na época colonial…

Com os portugueses trabalhamos muito bem, apesar de que tinham os seus feitios, próprios de colonizadores. Eram eles que dominavam. Mas trabalhávamos à vontade.


Como caracteriza a época de transição, ou seja, de 25 de Abril de 1974 a 11 de Novembro de 1975?

Já na véspera da independência nacional eclodiu a confrontação entre os movimentos de libertação nacional, que lutavam entre si. Foi uma época que se caracterizou por fugas constantes, quer da população, quer dos missionários. Foi também neste período que fui transferida para a cidade do Uíge, onde permaneci durante 18 anos, com ausência de algum tempo, quando fui a tratamentos na Itália. Lembro-me que num destes dias fugimos para o Paço Episcopal.
Quando cá cheguei, já tinha encontrado a FNLA, a UNITA e o MPLA. Os três movimentos já tinham os seus representantes. Quando começou a guerra, lembro muito bem do tiroteio em quase todo o lado. Provavelmente em Junho ou Julho de 1974. Nesta altura, como nas demais épocas da guerra civil angolana, o Paço Episcopal do Uíge era o refúgio da maioria da população da cidade, onde se escondiam dos bombardeamentos e da chuva de tiros. Lembro-me do dia em que os obuses caíram e deflagraram o quintal do Paço, próximo do nosso refeitório. Nesse momento estávamos na capela. Todos fugimos abandonando os terços e as bíblias. Quando nos acalmamos verificamos que era como se o mundo tivesse caído sobre o Paço. Vimos os destroços do telhado, vidros, terra, removidos e lançados para todos os lados. Éramos muito jovens, logo a seguir começamos a trabalhar reorganizando as coisas.
Um dos trabalhadores do Paço foi atingido no arrebentamento de uma bomba. Como enfermeira, dediquei-me a socorrê-lo. Mesmo com o tiroteio ainda a troar lá fora, saí para acompanhar o trabalhador ferido até ao hospital, onde foi recebido e eu própria curei a ferida dele.
Foi muito má a opção pela divergência que os movimentos tomaram, logo após o 25 de Abril, que descambou numa guerra feroz e atroz. Foi um grande erro o desentendimento entre os movimentos.


Esse rasto de horrores da guerra não parou…

A coisa mais engraçada foi o que vi, depois, em Maquela do Zombo, onde passei quase sete anos. Havia muitos ataques e recontros entre o Governo e a Unita. Quando se soubesse de um ataque iminente tirávamos todas as coisas do hospital, porque se acontecesse o ataque então roubavam tudo e ficaríamos sem como acomodar e tratar dos doentes. Levávamos tudo para a Missão Católica de Maquela. Um dia que já não me lembro, uma senhora foi ao rio Nzadi e pisou uma mina.


Ficou caída dentro do rio a gritar, a pedir socorro, passando os militares do Governo próximo do lugar, um deles ouviu os seus gritos. Foi socorrê-la, enquanto os outros avançaram. Ele também pisou uma mina. A senhora morreu dentro da água com os novos ferimentos e ele ficou ferido, tendo permanecido toda a noite no mesmo lugar. No dia seguinte os outros deram conta que faltava um colega. Nas buscas que fizeram o encontraram e levaram-no até a nossa Missão. Quando o vimos pensamos que ele estava a morrer, quase já não tinha sangue. Chamei o comandante, mostrando-lhe o meu receio de que ele pudesse não mais resistir, que iria morrer. O comandante respondeu-me "irmã, faça o que puder”. A outra irmã, que vivia comigo e que faleceu há pouco tempo vítima de covid-19, no Uíge, disse-me que tentássemos salvar a vida do jovem, mesmo estando prestes a morrer. "Irmã vá tentar fazer o possível para salvar esta vida”, disse-me. Daí criamos o ambiente na nossa casa, uma espécie de um centro médico ambulatório. Tiramos-lhe o fardamento militar, lavamos a ferida das suas pernas todas ensanguentadas. Vimos que a solução era amputar as duas pernas que quase estavam desligadas do corpo. "Agora quem vai fazer?” Ficamos a olhar-nos uma à outra. Os corações começaram a bater. Depois de algum tempo, eu disse à outra, "eu vou fazer”. Mas decidimos as duas fazer a operação. A outra já tinha trabalhado num bloco operatório na Itália. Ao soldado faltava sangue. Pedimos aos soldados, seus colegas do grupo, que não arredavam pé lá fora, para doarem sangue, depois de determinarmos o grupo sanguíneo que era o zero (O), universal. Durante a operação colocávamos o sangue que os outros iam doando. O homem estava para ir-se embora. Começamos a dar-lhe cortisona atrás de cortisona. Demos o que podíamos dar até não vermos mais o que dar. Disse a companheira: "Vamos esperar”. Por fim, quando o ferido mostrou alguma estabilidade, avançamos com o corte de uma das pernas. Depois de dois dias vimos que a segunda perna estava já a apodrecer, o que nos levou a recorrer ao hospital de Maquela, onde prosseguimos com as tentativas de cortar a segunda perna. Pusemos o material que tínhamos na estufa, que usamos depois de o estetizar. Pegamos em um serrote, não sei se era de carpinteiro. Pegamos o instrumento e começamos a fazer o trabalho de cortar a perna. Não podíamos cortar aquele osso em casa. Imagina a dor. Ele chegara a desmaiar já por duas vezes lá na Missão. Quando terminamos o trabalho de serrar o osso, ouvimos o roncar do motor de um helicóptero que trouxera armamento e víveres. Corremos até ao comandante pedindo-lhe que levasse o paciente para o hospital da cidade do Uíge. O homem está salvo. Neste momento se encontra no Uíge. Não sei em que bairro vive. Mas sei que está em vida. Estávamos provavelmente em 1992 ou 1993. Este é um dos episódios que me marcaram muito durante o tempo que vivo aqui no Uíge. Muito recentemente o homem procurou-me para me oferecer um cacho de banana. Está sem pernas. Quando ouviu que nós estávamos aqui no Uíge, veio a procura das irmãs que lhe operaram. Quando ouviu das irmãs Rosa e Inês veio para oferecer o cacho de banana.


Quando houvesse confrontações onde é que se escondiam?

O Paço foi sempre o lugar de refúgio das madres, dos padres, dos seminaristas e de muita gente da cidade. Imagina dar comida para toda essa gente. Era andar de um canto para outro, quase todo o dia. Nos municípios, muitos, incluindo nós, os missionários, era nas missões, nas casas dos padres ou das madres que se encontravam os refúgios, em todos os momentos de confrontações muita gente procurava refúgio em lugares da igreja para a protecção.


Esses lugares não eram atacados?

Os militares procuravam evitar atingir esses lugares sagrados de Deus


Como era a situação naqueles momentos?

A situação naquela altura era muito trágica. Se fosse agora não sei se teria capacidade de fazer aquilo que eu fazia, com muita seriedade e com muita paz interior.


Qual era o sentimento que tinham os angolanos no período de transição após períodos de guerra?

O primeiro sentimento era de agitação. Mas eu reconheço que o povo angolano tem uma capacidade de perdão muito invejável. Muito impressionante. Porque sempre que houvesse um interregno da guerra, como em 1992, 1994 e 2002, mesmo nós, pensávamos "Meu Deus, começou outra guerra!, uma outra guerra para ajuste de contas. Tu mataste o meu irmão, tu mataste o meu primo, tu mataste o meu tio… nada, nada disso ocorria”. Nem mesmo quando acabou a guerra em 2002. Reconheço que o povo angolano tem uma capacidade de perdão que é uma coisa muito impressionante.


Como é que lidavam com os militares que, eventualmente, se aproximavam dos vossos conventos? 

Num dado momento de uma confrontação na cidade do Uíge, ao espreitarmos das janelas do Paço, vimos muitos soldados a transportarem colchões na cabeça, que retiravam da pediatria do hospital. Aí gritamos "Meu Deus, onde as crianças ficarão?”. Eu disse para as outras, "Eu não posso ficar calada perante isso. Vou ter com eles. Isso é uma injustiça. Tem crianças internadas!”. Subi na minha viatura perante a reprovação das outras: "Não faça isso. Vão te matar”. E eu disse-lhes "eles que me matem” e segui ao encontro dos que levavam os colchões da pediatria nas cabeças. Parei o carro a frente deles e cumprimentei. "Manos, bom dia. Onde é que tiraram esses colchões?”. Eles me responderam "Não fale isso”. "Tiraram aonde esses colchões?”, repliquei. "Esses colchões são para crianças doentes. Quando recebermos as crianças na pediatria vamos colocar aonde as crianças, no chão?” Eles responderam que "o chefe é que nos mandou”. Mesmo com o meu atrevimento arriscado, apenas consegui salvar dois colchões.


O que viu nos dias que antecederam e sucederam ao 11 de Novembro de 1975?

Quando houve a odisseia no Paço fui a Luanda e depois para a Itália. Não assisti exactamente o momento da independência aqui em Angola. Deixei para trás tristes episódios que marcavam a vida dos missionários do Uíge. Depois houve a intervenção de Agostinho Neto que pediu para que os missionários do Uíge fossem a Luanda. Lembro-me, como me contaram depois, que antes deste dia os missionários saíram do Paços em caravana. Fizeram três dias de viagem. Dormiram no chão, com os mosquitos. Enfrentaram os inúmeros constróis que os militares dos movimentos construíam ao longo da via para Luanda. Chegou a haver até certas agressões contra os missionários em fuga. Ao tentar defender o Bispo, o padre Lourenço lhe bateram. Puxaram a barba dele. O bispo Francisco teve de falar com os comandantes militares para retirarem da prisão certos missionários que tinham sido detidos, como foi com o comandante Ndembo.


"A guerra é um tempo de horrores”

A irmã viveu três ou quatro épocas distintas da história de Angola. O período colonial, o período de transição, os períodos das guerras civis e agora o período de paz. Pode estabelecer alguma comparação em termos da realidade social destas fases?

Quando cheguei a Damba no período colonial me parecia estar na Itália. A estrada não era asfaltada mas era impecável. Não tinha buracos como hoje. Por essas estradas até passavam os maximbombos. Quando saí da Damba chorei, porque os professores, o povo, todos, não queriam que eu saísse. Estávamos muito familiarizados. No período do partido único não houve muita diferença, as estradas estragaram mas o povo não sentia muitas dificuldades. Durante as guerras, o que mais me preocupava eram os desassossegos do povo. As enchentes nos hospitais. Nunca tive problemas em ficar com esse ou aquele grupo político. Vivi o período de transição serenamente. Muita guerra. Você sabe o que faz a guerra. Destruiu os municípios, as infra-estruturas públicas e privadas. Esses períodos foram marcados pelas destruições, como a destruição do palácio de Maquela do Zombo, que era muito bonito na era colonial. Os miúdos iam muito cedo à tropa. Recorriam aos bairros para levar crianças. Num dado momento, recebi uma criança de 15 ou 16 anos. "A UNITA me levou. Agora não tenho ninguém”, dizia ele. "Eu já não quero mais ir com eles”. Disse-lhe, "olhe aqui não podes ficar, para o teu bem”. Depois veio alguém e levou-o para sua casa. Quando atacaram Maquela, por duas vezes que assisti, havia sempre muitos mortos. Muita gente morta no aeroporto. Quando houvesse os ataques toda a gente fugia para os refúgios e a vila ficava vazia. O hospital, onde trabalhava, ficava sempre sem nada depois dos combates. Tudo era saqueado. Poucos dias depois de um dos ataques senti um cheiro de podre. Pensei logo, aqui tem alguém que morreu. Pediram-me para não sair em busca do cheiro podre, mas saí mesmo. "Tenho de ir, tenho de ver o que se passa aqui com esse cheiro”, disse a elas. Encontrei perto da bomba, onde puxávamos a água para beber, a uns 30 metros da missão, onde vivíamos. Fui lá e vi então um soldado que estava morto e em estado de pré-petrificação.
"Que fazer?”, pensei comigo mesmo. Pus a máscara, calcei as luvas. Voltei a casa e de lá levei um pouco de petróleo que deitei em cima do corpo e com a enxada cavei o buraco para onde empurrei o cadáver. De seguida queimei-o. Foram tempos de marcas de horrores. Não sei se teria hoje a mesma coragem que tive.


E depois veio 2002…

O dia em que morreu Savimbi começou com tiroteio na cidade do Uíge. Eu estava doente. Houve um tiroteio tremendo que fez fugir as irmãs para determinados lugares do Paço. Todas pensávamos que se tratava de um ataque e que a guerra tinha voltado novamente à cidade, depois de Novembro de 1994. Tremíamos. Afinal era a alegria do povo quando ouviu que Savimbi tinha morrido.

    
Que outras marcas ainda registas dos períodos que a irmã testemunhou?

A guerra só destrói. Destrói tudo, deixa marcas profundas na vida das pessoas. A guerra destrói até os sonhos. Quando o meu pai me contava sobre a guerra da Itália entre 1942 e 1945 ao tempo de Mussolini, não imaginava que um dia poderia experimentar na própria pele, os horrores que ele contava. É por isso que peço sempre aos jovens que nem pensem sequer um dia voltar o país à guerra. Durante a tensão da guerra em Angola cheguei até a arrancar dentes a pacientes, um ofício que nunca exercia antes dos conflitos.


São as marcas da guerra…

Ainda me lembro de um polícia que vi, em Maquela do Zombo, não sei se tinha matado ou roubado alguém. Cavaram um poço e puseram-no dentro. A gente o via a nadar no meio da água, no meio da lama, até morrer. A pessoa estava a ser tratada como um animal, não pode. Mas é o que faz a guerra. Atrocidade atrás de atrocidade. As pessoas não devem sequer pensar que ela volte.


A irmã ainda não acabou de estabelecer a comparação que lhe coloquei…

Na paz há tranquilidade, criam-se oportunidades e opções de vida que não existiam nas épocas de guerra. Mas apesar da paz as pessoas reclamam ainda da fome, da falta de muitas coisas nas suas vidas…


O que é que deve ser feito para contrariar essa realidade?

Não posso dizer nada sobre essa situação muito difícil por que as pessoas estão a passar agora. Por exemplo, temos um grupo de meninas internas aqui, que não podemos ressarcir as suas necessidades. O sustento da vida está cada vez mais difícil, até para nós. Não temos sido capazes de atender as pessoas que nos batem à porta em busca de alimentos ou de outros socorros. Temos a nossa madre superior que mesmo assim não deixa as pessoas voltarem assim sem nada. Inventa sempre alguma coisa. Tem que dar alguma coisa, mesmo com carência. Está difícil a vida de hoje, porque o salário é quase sempre o mesmo, incapaz de atender as necessidades básicas das pessoas, porque as coisas aumentam a cada dia. Mesmo o produto da terra, na praça, está também a subir gradualmente. Antes não era assim. Agora o balde de maquese (bombó) é 3.000 kwanzas...


Na sua opinião isso deve-se a quê?

Não sei. Não sei. Acho que devido a… não posso dizer… o governo está a fazer tudo por tudo mas a impressão que eu tenho é que as pessoas que recebem o dinheiro não colocam à disposição de todos. É que quem recebe o dinheiro devia colocar à disposição do povo ou se guarda… mesmo no hospital falta medicamento. Mas porquê faltar medicamentos se o governo dá o dinheiro? Vai aonde esse dinheiro? Essa é a impressão que tenho. Não é que seja a realidade, porque não estou dentro do assunto. Mas me dá a impressão que seja isso.


A irmã disse que o governo dá dinheiro mas as coisas não aparecem. No seu entender, onde estará a ir esse dinheiro?

Noutro dia falei com o chefe do hospital. Quis saber se era possível que as crianças continuem a morrer por falta de medicamentos, em dias como hoje. Não é possível! E ele me respondeu: "Irmã, eu não posso dizer nada”. Então pedi que ele, pelo menos, me autorizasse para dar ordens aos pais para eles mesmos comprarem os medicamentos. Ele disse "não pode”. Não pode porquê? Não pode porque alguma coisa de mal estará a ser ocultada, porque se nem o pai pode comprar medicamentos… Também comecei a duvidar. Há dois ou três anos atrás num mês no hospital do Songo morriam perto de 40 crianças. Não é admissível… 


Naquele tempo as pessoas trabalhavam mais no campo, por isso as coisas eram mais baratas no mercado, em relação aos dias de hoje?

Não, não. Naquele tempo as pessoas trabalhavam menos no campo do que agora. As pessoas hoje vão mais ao campo porque a situação é mais dura do que naquelas épocas.


Porque é que hoje a vida é mais dura do que antes, como disse?

Eu também me pergunto: "Porquê?”


Se há mais produção agora…

É isso que eu disse, também me questiono porquê!? Não sei dar uma resposta a isso. Se não vai ao campo, não come. Mesmo um professor para apoiar um bocadinho a família, para ter alguma coisa a mais tem de ir ao campo para trabalhar. Porque a vida está muito cara.


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