Sociedade

A broa “milagrosa” da sobrevivência

Miguel Ângelo | Huambo

Jornalista

Uma mulher de estatura baixa, de 25 anos, que deixa dúvidas de ser mãe de três filhos e ainda por cima viúva, ingressou para as estatísticas do desemprego, em Abril deste ano, quando recebeu a notificação verbal do dono da loja de venda de telemóveis, onde trabalhava como empregada de limpeza.

10/12/2020  Última atualização 14H39
© Fotografia por: Miguel Ângelo | Edições Novembro
A primeira reacção de Graciana foi de "susto e medo”, porque não sabia como passaria a sustentar a família, 12 meses depois de o seu marido ter partido para o além. "O patrão chamou-me e disse que dispensava os meus préstimos na loja, porque as vendas baixaram muito. Chorei bastante, como no dia em que perdi o meu marido. Fiquei desnorteada. Não parava de chorar”, conta.
 Sem alternativas e apoio familiar, encontrou, a contragosto, por indicação de uma amiga, um novo caminho de sobrevivência: a venda ambulante de broa doce e salgada.

"Comecei o negócio com quatro mil kwanzas. Mas, com o passar do tempo e por razões de saúde, o dinheiro foi abaixo. Agora só estou a comprar broa de mil, para, no final das vendas, ganhar 500 kwanzas”, revela.
 "Se em casa já tem fuba compro, com o lucro, um pouco de carvão, óleo, e rama de batata, couve ou quizaca, para servir de conduto”, acrescenta.

É na padaria, localizada na zona nobre da cidade do Huambo, na rua dos Ministros, que a jovem e outras centenas de mulheres encontram a sobrevivência na broa "milagrosa”. "Foi mesmo um milagre a abertura dessa padaria. Está a nos ajudar a resolver muitos problemas”, disse a vendedora Augusta Marcolino, que, todos os dias compra o produto no valor de dois mil kwanzas.
 "Três broas são cem kwanzas. Na zunga vendemos cada 50. Aplico dois mil kwanzas para ganhar mil. Não é muito, mas já ajuda na compra de fraldas descartáveis para o bebé, cebola, tomate e outros produtos. Já não ficamos sem comer”, afirmou.
 
Mas, com a venda da broa, ganhar mil  kwanzas por dia, nunca foi tarefa fácil. Augusta Marcolino diz que é preciso chegar muito cedo à padaria, para ser uma das primeiras pessoas a ser atendida. "Tenho colegas que chegam aqui, às 4 horas, e só são atendidas às 18”, lamenta a jovem, acrescentando que isso acontece por culpa de um grupo de "sócias” que compram quase toda a broa produzida no período da manhã.

"Há muita gente neste negócio, por isso a padaria está sempre cheia”, diz Jamba Albertina, que chega muito cedo no local, às 5 horas. Deixa os filhos com o marido. Está desempregado.

 Fazer chegar a broa, às primeiras horas da manhã, às mãos dos clientes, que são maioritariamente efectivos de auto-protecção das empresas, percorrendo as diversas artérias da cidade do Huambo, contribui, significativamente, no resultado final das vendas.
 Victória e Cândida são cunhadas. As duas mulheres, garantem que a broa é de boa qualidade e grama pesada. "Ganhar 50 kwanzas, em cada três broas, é um milagre”, afirma Victória, que reconhece que a padaria, apesar de funcionar 24/24 horas, não tem capacidade para atender às solicitações da procura.

Na padaria, a fila é longa

 A fila para a compra da broa, na padaria, é longa. Crianças, jovens e adultos, maioritariamente mulheres, acotovelam-se para serem atendidos. Sem máscara e distanciamento físico, ignoram as medidas de prevenção à pandemia da Covid-19. Todas querem ser atendidas a qualquer custo.

Um funcionário da padaria Neto, Rafael Calei, disse que o "pessoal é muito complicado. Não aceita acatar os conselhos de distanciamento físico e uso de máscaras. Organizamos bem a fila. Mas, passados alguns minutos, fica tudo desfeito”, lamenta.
 A rua dos Ministros, considerada a mais nobre da cidade do Huambo, pelas belíssimas vivendas de que dispõe, tornou-se no endereço mais conhecido de centenas de senhoras à conquista de um dia de sobrevivência, com a broa "milagrosa”, mas que, no fundo, também alterou o clima de sossego dos moradores. "O que fazer? É a luta pela vida”, aceita, com naturalidade, o jovem Morais Hossi, que vive a escassos 100 metros da padaria.

Crédito e amor

As grandes vendedoras de broa, também conhecidas como "sócias”, têm, nos seguranças das empresas, um activo financeiro, garantido no final de cada mês. Elas entregam o produto a crédito.
Anastácia Vindes, que faz a distribuição na Rua do Comércio, às segundas, quartas e sextas-feiras, assegura que este sistema de venda é uma maneira que encontraram, "para ajudar os maridos das nossas amigas, que trabalham como segurança e não têm direito a pequeno-almoço. É só tomar um chá de caxinde ou dembe  e comer uma broa para aguentar até a hora do almoço”.

Mas o valor para garantir o fornecimento da broa, a crédito, não é igual ao da compra corrente.   O grupo de senhoras, a trabalhar como uma associação, constitui um capital à parte, sendo que, no final de cada mês, os lucros são repartidos. "É dessa forma que, com esse negócio, aumentamos os nossos lucros”, elucida Anastácia.   
Justo Cosme, segurança de um estabelecimento comercial, localizado na rua Imaculada da Conceição,  na zona da Cidade Alta, tem, no consumo da broa, acompanhado de chá e água fresca, a única refeição do dia. A empresa onde trabalha falha muito na distribuição da comida.

"Estas senhoras têm sido a nossa salvação. Elas nos dão o alimento a crédito, porque acreditam na nossa palavra”, explica Justo Cosme, para acrescentar que o salário de um segurança não serve para nada. "Não há condições para mandar comprar comida no mercado. A solução, quando estamos em serviço, é enganar o estômago com uma boa broa”, disse.  

No final do mês, Justo Cosme, que aufere um salário de 15 mil kwanzas, tem uma despesa fixada no valor de 1.200 kwanzas, no sistema de venda das sócias.  "Não posso, a depender do meu salário, gastar mais do que isso, porque senão vai estragar as minhas contas”, referiu. 

A vendedora Anastácia Vindes conta que, no momento do pagamento, não encontram dificuldades em receber "porque muitos desses seguranças valorizam muito o nosso trabalho. Sabem que o negócio não pode ir abaixo, senão morremos todos de fome”.
Francisco Guerra, vende livros e jornais num quiosque, na mesma rua em que trabalha Justo Cosme, e encontrou, nesse sistema de contrato de fornecimento de broa a crédito, o amor da sua vida.

 Lembra que tudo começou como se fosse uma brincadeira. No dia em que conheceu a sua actual mulher, ela estava acompanhada de colegas que faziam o mesmo tipo de negócio. Francisco estava cheio de fome e não tinha dinheiro para comprar comida. Contou que ela aproximou-se e lhe disse, no gozo, o seguinte: "morre de amor e nunca de fome. Vem tirar uma broa e paga quando puderes”.
Depois disso, Francisco Guerra ficou emocionado e nunca mais deixou de pensar na moça. "Sem pedir, encontrava sempre, no serviço, uma broa para mim. Conversei com ela e decidi ajudar no negócio”, explica.  Apaixonados, Francisco Guerra e a vendedora de broa vivem, como marido e mulher, e têm um filho.

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