Especial

4 de Janeiro de 1961 impulsionou a conquista da Independência Nacional

Venâncio Victor | Malanje

Jornalista

A revolta dos camponeses da região da Baixa de Kassanje contra o regime colonial português, a 4 de Janeiro de 1961, na antiga companhia luso-belga da Cotonang, em Malanje, assim como o início da luta armada, a 4 de Fevereiro do mesmo ano, impulsionaram a conquista da Independência Nacional, a 11 de Novembro de 1975.

24/11/2021  Última atualização 08H35
António Duarte, nacionalista e um dos sobreviventes dos massacres, disse ao " Jornal de Angola”, que o 11 de Novembro é resultado, também, dos dois acontecimentos. Conta que, em Dezembro de 1960, os camponeses da Baixa de Cassanje, particularmente no município do Kunda Dia Base, entre os quais estavam, também, alguns catangueses, concentraram-se a fim de receber sementes de algodão para o cultivo.

A produção devia, depois, ser totalmente vendida à Cotonang, a preços impostos pelo comprador. Como sinal de revolta pelos baixos preços que os colonos pagavam pelo algodão e aos maus-tratos da altura, os camponeses decidiram queimar as sementes.

Dada a insatisfação da população, o então regedor Kunda conversa com o povo e determina que, a partir daquela altura, ninguém devia ir à sede, onde os brancos se reuniam e quem desobedecesse tal orientação seria sancionado.

No dia 4 de Janeiro de 1961, o regedor Kunda convocou um encontro com os seus colaboradores, a fim de transmitir algumas ordens e, também, receber visitas do Congo. No mesmo dia, o soba Kadia, em conjunto com alguns elementos do bairro, dirigiram-se à sanzala do regedor. Postos lá, cruzaram-se com a tropa portuguesa, comandada por um mestiço conhecido por Chico Matos, que fez inúmeras perguntas ao grupo. Estes, sem rodeio, responderam que não queriam mais nada com os estrangeiros. "Aquilo era a coragem e inspiração pela Independência”, lembra António Duarte.

E o soba acrescentou: "Não queremos homens forçados a trabalhar nas vossas casas, a limpar o chão”. António Duarte garante que o acto foi o suficiente para ordenar a tropa colonial portuguesa a movimentar a sua máquina assassina contra os camponeses. No mesmo dia sete sobas foram mortos, entre eles Kadia, Neka Mukuta, Mbutão Nguio e Bandula


O papel da Igreja

O actual bispo da Igreja Metodista Unida da Conferência Anual do Leste de Angola, José Kipungo, tinha 11 anos e vivia na pequena aldeia do Cuanga Muxinda, quando se deu a revolta de 4 de Janeiro de 1961.

José Quipungo recorda que as pessoas produziam muito algodão, mas o que ganhavam com a venda "era uma mera miséria”, o que fez com que os camponeses decidissem a não trabalhar mais o algodão. Na altura, as pessoas juntaram-se, em simultâneo, em Xá Muteba e Teka-Dya- Kinda, a 12 quilómetros da sede municipal do Quela.

"Todos os camponeses que estavam coagidos no cultivo de algodão na Cotonang, na companhia dos filhos e mulheres, foram questionados, se queriam ou não continuar a cultivar o algodão. A resposta dos camponeses foi um categórico ‘NÃO’”, explica.

José Quipungo lembra que os camponeses argumentaram que estavam cansados de cultivar o algodão e de serem explorados. Em resposta, os militares portugueses exigiram sugerindo-lhes duas opções: ou continuassem a cultivar e ficavam com vida ou, então morreriam todos.

"Inspirados pela Independência, o povo respondeu: ‘podem nos matar’. E aí começou o fogo. As pessoas começaram a correr em debandada. Muita gente morreu, de várias idades”, lembrou José Quipungo.

A partir daquela data, acrescentou o bispo da Igreja Metodista Unida, a revolta se estendeu para todo o país e muitos angolanos, que tinham um certo nível de escolaridade, decidiram resolver o problema, optando pela luta pela Independência Nacional.

José Quipungo explicou que todos aqueles que estavam nas universidades e outras escolas dentro e fora do país decidiram organizar-se para fazer a luta armada de libertação. "Não foi fácil. Jovens como Agostinho Neto, fundador da Nação, e que foi filho de um pastor metodista, tinha seguido para o exterior do país e, com muitos outros angolanos, organizaram a revolta contra o poder colonial.

O bispo lembra, ainda, que a luta realizou-se nas matas e florestas, onde vários angolanos pegaram em catanas para se defender. A batalha foi levada avante até que o colono viu que não podia mais resistir, dando conta que Angola demonstrava que já não queria continuar sob o jugo colonial. "Por isso, abandonaram o país e conquistamos a Independência”, afirma.

Honrar aos heróis
José Quipungo lembra que muita gente perdeu a vida nas matas e afirma que os heróis nacionais têm sido honrados de diversas formas. Para o bispo, cada geração deve dar o seu melhor para dignificar aqueles que partiram por este país. "Tudo o que podermos fazer é pouco, em relação àquilo que devemos e urge a necessidade de todos estarem de mãos dadas, desde os partidos políticos e a sociedade em geral, para o bem da Nação independente, livre e soberana”, sublinha o bispo.
"Hoje Angola é respeitada no mundo, porque conquistou o respeito próprio. Precisámos, todos, trabalhar unidos para dignificar os heróis que se bateram pela conquista da Independência Nacional,”, disse.


Contributo da Igreja


José Quipungo afirma que a Independência Nacional tem, também, as "mãos da Igreja Metodista Unida”, pois a nível dos dirigentes do país, muitos têm a sua essência e o ponto de partida na Igreja. O bispo prefere não citar nomes, mas afirma que "todos tiveram uma educação cristã, e têm vindo a dar o seu contributo para que o país se torne cada vez mais livre, soberano e reconhecido por todos os outros países do mundo”.

A província de Malanje foi, no tempo colonial, a maior produtora de algodão no país. A Baixa de Cassanje, região que abarca os municípios de Caombo, Marimba, Kunda-dya-Base, Quela e Massango, notabilizou-se pela quanti-
dade e qualidade de algodão que colocava no mercado internacional.

Até 1961, a região era habitada por 150 mil pessoas e os campos de algodão tinham quase 85 mil agricultores e respectivas famílias, alguns provenientes de outras áreas, coagidos a cultivar e vender o algodão a comerciantes portugueses.

A Baixa de Cassanje é uma vasta depressão geográfica com cerca de 80 quilómetros quadrados, que abarca a província de Malanje até a Lunda-Norte e Lunda-Sul. No âmbito do Programa de Relançamento da Produção do Algodão, do Ministério da Agricultura e Pescas, estão reservados, naquela área, 250 mil hectares para o cultivo.

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