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27 de Maio: Local das ossadas vai ser “ponto de romagem”

O Governo vai transformar, num ponto de romagem, o local onde estavam enterradas há 45 anos, as ossadas de Nito Alves, Monstro Imortal, Sianouk e Ilídio Ramalhete em homenagem às vítimas do 27 de Maio de 1977.

05/07/2022  Última atualização 08H42
Momento de apresentação às famílias do local onde foram retiradas as ossadas das vítimas do 27 de Maio © Fotografia por: Cedida

A informação foi anunciada, esta segunda-feira, pelo ministro da Justiça e dos Direitos Humanos, que adiantou, na ocasião, a pretensão do Executivo em transformar o local que fica na zona dos Ramiros, a 20 quilómetros de Luanda, num lugar de visita para se prestar homenagem "àqueles que pereceram e foram enterrados de forma tão trágica".

Em declarações à imprensa, no final da cerimónia de apresentação às famílias do local onde os corpos estavam enterrados desde 1977, Francisco Queiroz justificou a iniciativa: "para lembrarmo-nos do que aconteceu, para que nunca mais aconteçam coisas do género".

Durante o acto que teve como objectivo esclarecer o processo de localização das ossadas, de recolha, transporte, conservação, individualização das mesmas e que destino vai-se dar à sepultura comum, o também coordenador da Comissão para a Implementação do Plano de Reconciliação em Memória das Vítimas dos Conflitos Políticos (CIVICOP), fase II, referiu que o local será entregue às autoridade do Governo Provincial de Luanda e da Administração Local para tratamento adequado.

Depois do processo de entrega das ossadas e da realização dos funerais, as famílias tinham o direito de saber onde estavam enterrados os seus familiares, como vieram parar ao local e todo o processo de exumação dos ossos e conservação, depois dos testes.

O trabalho não estaria completo se não se mostrasse às famílias o lugar onde estiveram enterrados por 45 anos os seus ente-queridos. Nisto, sublinhou, houve uma orientação transmitida pelo Presidente da República para cumprir com estes passos, muito importantes para as famlias.

"O exercício é mesmo descarregar o espírito e criar o ambiente para a verdadeira reconciliação pessoal daqueles que perderam os seus entes-queridos para que estejam bem consigo próprios, mas também de conciliação para com o que aconteceu na altura", destacou.

Francisco Queiroz reconheceu que os conflitos do 27 de Maio foram um acontecimento trágico que não se pretende que volte acontecer nunca mais: "Mas era necessário termos esse momento que tem o seu carácter sensível e forte".

Sobre a iniciativa, a governadora de Luanda, Ana Paula de Carvalho, disse que vai trabalhar neste sentido e o local poderá ser transformado numa zona histórica ou de visitação. "Vamos trabalhar para ver os marcos que levaram até ao local e estruturar bem o projecto. Será um local voltado para a história de Angola e cultura de Luanda. Vamos elaborar melhor o projecto e depois divulgar de concreto o que será feito”, sustentou.

 

Desenterrar das feridas

Para os familiares, o contacto directo com a sepultura co-mum onde estavam enterrados os seus entes queridos foi o ápice e o desenterrar de todas as feridas e perguntas sem respostas desde 1977.

Aos prantos, uma das filhas de Ilídio Ramalhete disse: "Durante muitos anos, passei por esses lados, sem saber que o meu pai sempre esteve enterrado aqui perto. Foram anos de muita dor, incerteza e angústia. Afinal, o meu pai estava mesmo aqui enterrado".

Para a sobrinha de Nito Alves, Beatriz Adão, o momento foi muito importante para a família e ao mesmo tempo triste: "Estávamos bem próximos e não sabíamos que estavam enterrados aqui e o que mais dói é que a nossa ferida a cada dia que mexem nesse dossier mexem também com as nossas estruturas. Mas o nosso lema é perdoa e para a família era importante conhecer o local e saber muito mais”.

 

Processo de localização 

Para a localização da vala co-mum, o engenheiro técnico do grupo de exumação Hamilton Bonga,  referiu que a parte técnica de pesquisa e exumação teve várias nuances de trabalho que começou por reunir todos os arquivos físicos da segurança das fontes orais de alguns "correligionários ainda vivos" e outros do Ministério da Defesa Nacional e Veteranos da Pátria.

A equipa trabalhou, de forma muito árdua, para juntar todas as informações e começar a pesquisa e a localização. No princípio, explicou, começou por localizar a linha matriz para identificação de todos os pontos colocados à disposição pelos arquivos físicos e orais, que permitiram a identificar só em Luanda nove pontos potenciais, cujas pistas apontavam, à partida, a zona do São Pedro da Barra até ao Miradouro.

Com recurso a um pequeno mapa, Hamilton Bonga referiu que a equipa técnica fez uma incursão por todo o Litoral de Luanda, desde o Norte a Sul, onde registaram muitas falhas. Nisto, prosseguiu, foram desalojadas e realojadas, em actos contínuos, muitas famílias.

Essas falhas, ao nível do trabalho feito, reconheceu, são normais, principalmente, depois de 45 anos: "É muito difícil localizar esses pontos, principalmente, na zona dos Ramiros, que era completamente fechada e com matas. Na época, não havia habitações".

Em sequência, continuou, definiu-se algumas zonas, que saíam do quilómetro 30 até ao 32, onde se fez o rastreio ponto-a-ponto, cada milímetro, centímetro e metros, sempre com o auxílio da tecnologia. A equipa socorreu-se, várias vezes, de fontes humanas e orais desde as orais, documentos e ficheiros, incluindo as autoridades tradicionais e os moradores deste perímetro.

O rastreio foi feito com o equipamento MK32, adquirido no Canadá, seguindo os exemplos de outros países que fizeram o mesmo. Para o sucesso deste desafio, reconheceu, a equipa técnica teve também o apoio de alguns especialistas brasileiros na formação para o manuseio correcto dos equipamentos.

O MK30, realçou, apesar de não ser um Raio X, permitiu rastrear toda a capacidade do solo e auxiliar a encontrar alguns vestígios. Só quando os resultados tecnológicos começaram a apresentar algum índice de trabalho é que a equipa ficou concentrada durante seis meses a processar os resultados e montar um laboratório de campo, fazendo várias análises ao solo.

Depois de se confirmar alguns dossiers ao nível dos resultados técnicos, a inexperiência de escavar com as máquinas, volvido esse tempo todo, assumiu, contribuiu para a  danificação de algumas peças, o que os obrigou a prosseguir com a escavação de forma mais acautelada com pás, enxadas, para conseguir tirar os ossos todos.

"Todas as peças retiradas da vala estavam bem conservadas, a terra ajudou a conservá-las e porque se encontravam amontoadas, obedecendo a um critério de enterro", esclareceu, realçando que "as ossadas foram colocadas em forma de camadas, uma em cima da outra, uma técnica que auxiliou na conservação das peças”.

Depois da remoção das peças de forma manual, criou-se um ponto de armazenamento, onde foram aquarteladas as ossadas durante algum tempo para preservar o perfil, sob orientação da equipa médica-forense que, em tempo oportuno, fez a recolha, cumprindo sempre com os procedimentos exigidos pela Medicina Legal.


 Muxixeiros e língua do mar cruciais na localização


Hamilton Bonga  disse que a árvore do Muxixeiro e a Língua do Mar, uma referência de destaque naquelas praias, logo à entrada ao sítio onde foram enterrados Nito Alves, Monstro Imortal, Sianouk e Ilídio Ramalhete, foram pontos-chaves para a localização da vala comum.

No princípio, as fontes orais deram algumas informações deste local que, numa primeira instância, apontavam para o quilómetro 30 e ao 32, mas, depois, se lembravam de mais pormenores sobre a existência no lugar de duas árvores de Muxixeiros e nem sequer sabiam que estas duravam tanto tempo assim, tão pouco qual delas se referiam.

"Mas quando se referiram à Língua da Ilha e dos tanques bebedouros para gados, tudo começou a fazer sentido e fez-nos trabalhar de forma mais afincada”, contou, frisando que o itinerário não foi feito por acaso, mas de forma premeditada para se perceber como é que esta acção foi feita e como as pessoas gravaram esses acessos.

"Naquele Muxixeiro estavam as máquinas retroescavadoras, as mesmas que fizeram a escavação aqui e a vala não tinha mais de dois metros. Tinha 12 metros de comprimento e 4 metros de largura com pouca profundidade", concluiu.

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