Reportagem

25 de Maio: “A África deve unir-se”

Rui Ramos

Jornalista

Este dia, anteriormente proclamado como Dia da Libertação Africana, celebra a luta pela independência do continente africano, contra a colonização europeia e contra o regime do Apartheid, assim como simboliza o desejo de um continente mais unido, organizado, desenvolvido e livre.

25/05/2022  Última atualização 09H34
© Fotografia por: DR

25 de Maio de 1963, há 59 anos, a África não estava unida. Para trás ficavam séculos de escravização alimentando as novas economias euro-americanas, um colonialismo que traçou fronteiras a partir do exterior sem ter em conta a realidade histórica de largas centenas de povos e territórios, um racismo opressor que atirava para a sub-humanidade uma parte importante da população mundial, tornada objecto dos interesses extra-continentais.

Agora era tempo das independências nacionais e da emergência de líderes nacionalistas no meio de uma complexa guerra-fria em que se digladiavam interesses estratégicos norte-americanos, russo-soviéticos, chineses, franceses, ingleses, em cujas armadilhas muitos dirigentes africanos caíram, hipotecando rapidamente os seus países, com o ascenso de uma "burguesia importadora-compradora” que colocou muitos países africanos na esfera do neocolonialismo.

25 de Maio de 1963 marca o Dia em que, por iniciativa do "velho leão” Hailé Selassié, o imperador da Etiópia, o grande país independente de África, o continente tentou unir-se.

Kwamah Nkrumah, dirigente nacionalista do Ghana, escrevia o seu livro "A África deve unir-se”, mas alertava:  "O neocolonialismo é a última etapa do imperialismo”.

No seu discurso, Selassié proclamava: "A África precisa de ter a sua ONU". Pela primeira vez os dirigentes africanos sentavam-se à mesma mesa, fora da órbita europeia. A última grande conferência sobre África e o seu destino tinha sido realizada em Berlim e nela compareceram dirigentes estranhos ao processo histórico africano.

A Conferência de Berlim decorreu entre 15 de Novembro de 1884 e 26 de Fevereiro de 1885, há cerca de 150 anos, com a participação de 14 países, incluindo alguns Estados que não dispunham de colónias, como foi o caso dos países escandinavos e dos EUA.

Em 15 de Novembro de 1884 tem início a Conferência de Berlim, convocada pela França e Grã-Bretanha e organizada pelo Chanceler Bismarck da Alemanha. Bismark abre a conferência definindo como objectivo da mesma o estabelecimento do direito no acesso de todas as nações ao interior de África.

Entre os 14 participantes na Conferência havia dois grupos: um grupo de países com interesses directos nos problemas relativos à partilha de África, caso do Reino Unido, França, Alemanha, a  "Associação Internacional do Congo" e a Holanda, e outro grupo formado pelos restantes participantes que não tinham interesses relevantes no continente africano, caso do Império Austro-húngaro, Dinamarca, Itália, Espanha, Rússia, Suécia, Império Otomano e EUA.

Três pontos principais constituíram a agenda da Conferência: a liberdade de comércio em toda a bacia do Zaire e sua foz, a aplicação dos princípios do Congresso de Viena quanto à navegação nos rios internacionais (entre outros, do Níger), a definição de  "regras uniformes nas relações internacionais relativamente às ocupações que poderão realizar-se no futuro nas costas do continente africano” e estatuir sobre o tráfico de escravos.

Em 20 de Setembro de 1845, quarenta anos antes da conferência, o Reino Unido reconheceu os direitos portugueses sobre os territórios de Ambriz, Malembo e Cabinda.

Na data da Conferência de Berlim, só dois territórios africanos sub-saarianos eram independentes, mas não foram tidos nem achados.

Libéria

A Libéria, chamada "Costa da Pimenta” pelos colonialistas europeus, foi fundada e colonizada por escravizados americanos libertos, com a ajuda da organização privada "American Colonization Society”, entre 1821 e 1822. Pessoas escravizadas libertadas de navios "negreiros" foram enviados para a Libéria, em vez de serem repatriados para os seus países de origem. Essas pessoas criaram um grupo de elite da sociedade da Libéria, e, em 1847, fundaram a República da Libéria, que instituiu um governo inspirado nos Estados Unidos, nomeando Monróvia como sua capital, homenageando James Monroe, o quinto Presidente dos Estados Unidos.

O primeiro Presidente do país foi Joseph Jenkins Roberts, natural do estado da Virginia, EUA. O partido True Whig dominou a vida política, desde o nascimento do país até ao golpe de Estado de 1980.

Etiópia

A Etiópia, antiga Abissínia, histórico país do Leste africano, governado por uma Dinastia com raízes no século X a.C., teve a sua independência interrompida na Segunda Guerra Mundial com a ocupação italiana (1936–1941). Durante a guerra, Hailé Selassie discursou na Liga das Nações, em 1935, o que fez dele uma figura mundialmente conhecida, sendo nomeado pela revista "Time” como o Homem do Ano em 1935. Quando as outras nações africanas conquistaram as suas independências dez anos após a Segunda Guerra Mundial, muitas adoptaram as cores da bandeira da Etiópia. Em 1974, a dinastia liderada por Haile Selassié foi deposta por um golpe de Estado.

A Etiópia é considerada uma das áreas mais antigas de ocupação humana do mundo. Lucy, descoberta no Vale de Awash, região Afar da Etiópia, é considerado o segundo mais antigo, mais bem preservado e mais completo fóssil adulto Australopithecu, conhecida como Australopithecus afarensis, em Afar, região da Etiópia onde a descoberta foi feita. Lucy pode ter vivido na Etiópia há 3,2 milhões de anos atrás.

Marrocos

Na parte mais a norte, fazendo fronteira marítima com a Europa, situa-se Marrocos. Desde a fundação do primeiro Estado marroquino por Idris I em 788, o país foi governado por uma série de dinastias independentes, atingindo o mais alto nível sob as dinastias Almorávida e Almóada, abrangendo partes da Península Ibérica e noroeste da África. As dinastias Merínida e Saadiana continuaram a luta contra a dominação estrangeira e Marrocos continuou a ser o único país do Norte da África a evitar a ocupação pelo Império Otomano. A dinastia Alauita, reinante actualmente, tomou o poder em 1666. Em 1912, Marrocos foi dividido em protectorados franceses e espanhóis, com uma zona internacional em Tânger, tendo recuperado a sua independência em 1956.

Na parte nordeste do continente situa-se a Núbia, região do vale do rio Nilo actualmente partilhada pelo Egipto e pelo Sudão. Na antiguidade, desenvolveu-se como a mais antiga civilização da África, baseada na sociedade do Alto Egipto. Napata, antes de ser a capital da Núbia (independente da sua metrópole colonial egípcia), era uma mera colónia egípcia ao sul de Assuão, anexada durante o Médio Império egípcio.

Antigos impérios africanos

A ascensão do Império Zulu não teria acontecido sem uma pulada de cerca estimulada por Shaka Zulu, filho do chefe Senzanganoka. Evitando várias tentativas de assassinato e disputas familiares sangrentas, Shaka tornou-se chefe dos Zulus.

Usando inovadoras tácticas militares, Shaka deixou-nos um império rico e famoso, uma das civilizações africanas mais temidas durante o período colonial. Ele treinou os seus guerreiros tão bem que derrotou a invasão britânica. Depois de um período de poder e violência, por volta de 1900, os Zulus foram absorvidos pela Colónia do Cabo.

Zimbabwe

É o nome moderno para a civilização pré-colonial mais proeminente no sul da África. O nome é derivado de um dos dois termos possíveis: o Xona (dzimba dza mabwe ou "Grandes casas de pedra”) ou Kalanga (Nzi we mabwe ou "Casa de pedra no campo”). As sociedades proto-xona surgiram pela primeira vez no meio do vale do Limpopo no século IX antes de se mudarem para o planalto do Zimbábwe.

O planalto zimbabwano tornou-se o centro dos Estados Xona subsequentes, por volta do século X quando o comércio se desenvolveu com comerciantes árabes na costa do Oceano Índico, ajudando a desenvolver o Reino de Mapungubwe no século XI. Este foi o precursor das civilizações Xona mais impressionantes que dominariam a região durante os séculos XIII a XV, o Reino do Zimbabwe, evidenciados pelas ruínas no Grande Zimbabwe, sua capital, e perto de Masvingo e outros locais menores. Essas ruínas fazem parte do principal sítio arqueológico da parte Sul da África e possui uma arquitectura de pedra seca única.

O Reino de Mapungubwe foi o primeiro de uma série de Estados comerciais sofisticados desenvolvidos no Zimbabwe na época dos primeiros exploradores europeus de Portugal. Eles trocavam ouro, marfim e cobre por panos e vidro. De 1300 a 1600, Mapungubwe foi substituído pelo Reino do Zimbabwe, com arquitectura de pedra mais refinada do que Mapungubwe, que sobrevive até hoje nas ruínas da capital do reino de Grande Zimbabwe.

De 1450-1760, o Zimbabwe foi vencido pelo Reino de Mutapa, que governou grande parte da área conhecida hoje como Zimbabwe e partes do centro de Moçambique. Foi Império como Mutapa, Mwene Mutapa ou Monomotapa, bem como "Munhumutapa”, conhecido pelas suas rotas comerciais estratégicas com os árabes e portugueses. Os portugueses monopolizaram a sua presença e iniciaram uma série de guerras que quase colapsaram o reino no início do século XVII.

 Como resposta directa ao aumento da presença europeia no interior, emergiu um novo estado xona, conhecido como o Império Rozwi ("destruidores”) que expulsaram os portugueses do Zimbabwe pela força das armas. Cerca de 1821, o general Aulu Mzilikazi do clã Khumalo revoltou-se contra o rei Shaka e criou o seu próprio clã, o Ndebele que rompeu para o norte, no Transvaal, deixando uma trilha de destruição iniciando uma era de devastação generalizada conhecida como Mfecane. Quando os Trekboers holandeses convergiram para o Transvaal em 1836, eles dirigiram a tribo ainda mais para o norte.

Em 1838, o Império Rozwi e os outros estados Xona menores, foram conquistados pela tribo Ndebele. Depois de perder suas terras sul-africanas remanescentes em 1840, Mzilikazi e sua tribo permanentemente se estabeleceram no sudoeste do actual Zimbabwe, no que se tornou conhecido como Matabeleland, estabelecendo Bulawayo como sua capital.

No final do século XIX, os ingleses, dirigidos por Cecil Rhodes, começaram a colonizar a região para extraírem minerais.

Império Monomotapa

Também grafado Mwenemutapa, Muenemutapa, ou ainda Monomatapa, que era o título do seu chefe, foi um império que floresceu entre os séculos XV e XVIII na região sul do rio Zambeze, entre o planalto do Zimbabwe e o Oceano Índico, com extensões provavelmente até ao rio Limpopo.

Segundo alguns, o império Monomotapa ficava em Mebiri, ao norte da actual cidade de Harare, no actual Zimbabwe. Este Estado africano era poderoso, uma vez que controlava uma grande cadeia de minas e de metalurgia de ferro e ouro, cujos produtos eram procurados por mercadores de outras regiões do mundo. As origens da dinastia governante remontam à primeira metade do século XV.

De acordo com a tradição oral, o primeiro "mwene” foi príncipe guerreiro de um reino xona ao sul, chamado Niatsimba Mutota, enviado para encontrar novas fontes de sal ao norte. Mutota encontrou o sal entre os tavaras, uma subdivisão dos xonas que era notória caçadora de elefantes. Foram então conquistados, e a sua capital estabelecida a 358 quilómetros ao norte do Grande Zimbabwe, no Monte Fura, perto do rio Zambeze. O primeiro europeu a tomar contacto com a cidade de Grande Zimbabwe, capital de Monomotapa, teria sido o navegador e explorador português Sancho de Tovar.

Reino do Kongo

O Reino do Kongo ou Império do Kongo foi um Estado pré-colonial africano no território que hoje corresponde ao Noroeste de Angola (incluindo Cabinda), o Sudoeste e Oeste da República do Congo, a parte Oeste da República Democrática do Congo e a parte Centro-Sul do Gabão. Na sua máxima dimensão, estendia-se desde o oceano Atlântico, a oeste, até ao rio Cuango, a leste, e do Rio Ogoué, no actual Gabão, a norte, até ao rio Cuanza, a Sul. O Reino do Kongo foi fundado por Nimi a Lukeni no século XIV. De acordo com a tradição do Congo, a origem do reino reside em Pemba Cassi, um grande reino bantu ao sul do Reino Bambata, que se fundiu com este para formar o Reino do Kongo, por volta de 1375.

O primeiro rei do Reino do Kongo foi Nimi a Enzima mas foi Nimi a Lukeni que fez de MBanza Congo a capital. Após a morte de Nimi a Lukeni, seu irmão, Mbokani Mavinga, assumiu o trono e governou até aproximadamente 1467 e expandiu o Reino do Kongo para incluir o Reino de Loango mas a sua área de influência estendia-se aos Estados independentes, tais como Ndongo, Matamba, Cassange e Kissama. A linhagem de reis durou desde a fundação do reino, em 1390, até à abolição em 1914 pela recém-implantada Primeira República Portuguesa, que diminuiu o título do rei a uma mera figura simbólica na cidade de São Salvador (MBanza Congo).

Império Lunda

Durou de cerca de 1590 a 1887. Foi uma confederação africana pré-colonial de Estados. Os excedentes de produção e os presos de guerra permitiam à aristocracia Lunda manter relações comerciais de longa distância com o litoral, Cassanje, Matamba, Loango e os povos do Planalto Central de Angola. O coração original do reino da Lunda foi uma simples vila (em língua lunda, gand). Ela era governada por um rei intitulado "Mwanta Gandi”, em 1590, Nkonde Matit.

Por volta de 1650, o reino-império atingiu o seu auge, nos reinados de Condi-Iala-Macu-Matete e sua filha Lueji A’Nkonde, quando a produção agrícola abastecia quase todas as possessões coloniais europeias da bacia do Congo. Além disso, nesse período também o reino dominava a fundição de metais e o tráfico de escravos. A capital era a cidade de Mussumba. O império caiu em decadência até ao século XIX, causada pela relação da rainha lunda com um caçador e líder de clã chamado Tchibinda Ilunga, irmão de Calala Ilunga (rei do vizinho reino da Luba). Tchibinda Ilunga abandonou o reino Luba e casou-se com Lueji A'Nkonde, rainha do reino da Lunda. A decisão da rainha em contrair matrimónio com o estrangeiro luba, causou revolta na aristocracia lunda.

A queda do Primeiro Império da Lunda verificou-se no século XVII, em virtude da disputa em torno da herança do trono de Lueji A'Nkonde, causando a divisão deste em três reinos: Lunda-Luba (século XVII), Lunda-Cokwe (século XVII, da qual continuou soberana) e Lunda-A-Ndembo (século XVIII). O principal Estado que sucedeu ao império, o Reino Lunda-Cokwe, formou-se depois do ataque empreendido pelos cokwes à capital Mussumba.

Em 1884 foi feito um acordo de divisão do Segundo Império da Lunda entre a África Ocidental Portuguesa, o Estado Livre do Congo do rei Leopoldo II da Bélgica e o noroeste da britânica Rodésia, que viriam a tornar-se em Angola, República Democrática do Congo e Zâmbia.

Reino de Kush

O reino de Kush dominava na época a região chamada de Núbia, que hoje faz parte do Sudão. Antiga colónia do Egipto, o Reino de Kush misturava cultura egípcia com a de outros povos africanos. Esta civilização construiu diversas pirâmides e realizava a mumificação nos mortos. Rica por causa do ferro, no Reino de Kush as mulheres eram o grupo mais importantes. Invadida por volta do ano 350 d.C, pelo Império de Axum, esta civilização deu origem a uma nova sociedade denominada Ballana.

Apresentando vestígios de ocupação humana datados de cerca de 7.000 a.C., os núbios inicialmente viviam da caça e da colecta. Com a posterior criação de ovelhas, cabras e bois, por volta de 4.000 a.C., deu origem ao Reino de Kush, que existiu entre o III Milénio a.C. e o século IV d.C.. Este reino foi dominado pelo Reino de Axum e, a princípio, os núbios formaram novos pequenos Estados fora da região ocupada. Um deles, Macúria foi importante na região, assinando um pacto com o Egipto islâmico para conservar a sua religião cristã (copta), que foi mantida até ao século XIV, quando foi submetida aos árabes dominantes, os Turcos Mamelucos, por volta de 1315. Eles impuseram a sua religião muçulmana e colocaram no poder um príncipe Núbio convertido ao Islão.

A parte sul conservou-se independente, como Reino de Senar, até ao século XIX, quando o Reino Unido ocupou a região. Com a moderna independência dos Estados africanos, os núbios ficaram divididos entre o Egipto e o Sudão. Na grande curva do Nilo, na parte sudanesa, encontram-se as ruínas das cidades de Napata, perto do monte Jebel Barcal, e Meroé que foram inscritos pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), em 2003, na lista do Património Mundial.

Existiram ainda outros reinos ou impérios, como de Axum, do Ghana, do Mali, Songhai, do Benin, de Punt, Cartago e de Canem-Bornu, cuja abordagem faremos nas próximas edições.

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