Reportagem

25 de Abril: Uma vida longa na qual a formação teve papel relevante

Rui Ramos

Jornalista

Amélia Epalanga recebeu-nos em sua casa, em Luanda, e revelou uma fresca memória da sua infância na Missão do Dondi, no Huambo, e da sua prisão pela PIDE, em 1969

26/04/2022  Última atualização 08H05
© Fotografia por: DR

Amélia Edite Eyuva Epalanga completa 89 anos no próximo dia 25 de Agosto. Natural de Cachiungo, ex-Bela Vista, Huambo, filha de André Eyuva, professor, e de Adriana Sakamana Eyuva, professora de formação feminina.

Amélia Edite Eyuva Epalanga estudou na Missão do Dondi e em 1946 na Missão de Tchissamba mas voltou ao Dondi para completar a 4ª classe, numa altura em que o presidente do júri examinador ia de Luanda. Frequenta, então, uma formação feminina de 4 anos, na Escola Means, no Dondi, tendo como colegas Vitória Firmino, Judite Chinakussoki Savimbi, Alberta Clara, a sua irmã Lúcia Neyuva e Alice Monteiro, até fins de 1951.

Amélia Edite Eyuva Epalanga começou a trabalhar antes dos 17 anos, na Missão do Dondi, no hospital e no instituto, na escola Means.

Em 21 de Março de 1952, Amélia Edite Eyuva Epalanga casou com Enoque de Oliveira Epalanga, na altura estudante no colégio Alexandre Herculano, no Huambo.

"Eu dava aulas também numa escola da Bomba Baixa, ficámos assim cerca de um ano, depois o meu marido ganhou uma bolsa de estudos para continuar os estudos em Lisboa", diz. "Eu fiquei na escola de Lutamo a ensinar, daí a 3 anos ele voltou e foi nomeado director da Missão de Lutamo, o bispo Emílio de Carvalho também andava no instituto, fundado pelo missionário canadiano Teodoro Tucker e sua esposa Catarina. Quando foram embora, veio Selénia Ferreira, brasileira. Isso foi por volta de 1953".

Quando Selénia se reformou, o marido de Amélia Edite Eyuva Epalanga foi indigitado para o seu lugar de direcção da educação da missão e depois, por volta de 1956, voltou a Lisboa e Amélia Edite Eyuva Epalanga ficou a cuidar dos filhos.

Amélia Edite Eyuva Epalanga retomou o trabalho de professora na missão de Lutamo, já com o 2.º ano do liceu completo, o então primeiro ciclo, o marido trabalhou também na missão depois de regressar de Lisboa e ganhou uma bolsa de estudos do Magistério Primário do Cuito, Bié.

Amélia Edite Eyuva Epalanga, corria o ano de 1969, preparava-se para ir para o Cuito, para ao pé do marido, manhã cedo, preparou fuba e arrumou as roupas, as suas e a dos 5 filhos e, quando se preparava para sair, um homem estava na parte de trás da casa e outro na porta da cozinha.

Um deles perguntou-lhe se recebia correspondência de fora e entrou para o quarto de dormir, revistou tudo e abriu um baú onde estava guardada uma bandeira portuguesa.

Era o agente da polícia política PIDE José Reis que, surpreendido, perguntou a Amélia: "Uma bandeira portuguesa aqui? Porquê?"

Amélia Epalanga explicou que a bandeira tinha sido oferecida ao marido quando ele estudava em Lisboa. No baú também havia fotos de missionários estrangeiros e o agente quis saber quem eram. "São os missionários das nossas missões."

O agente da PIDE então ordenou: "Vamos para a Bela Vista, logo à tarde voltamos aqui..."

Entretanto, outro grupo de agentes da polícia política tinha ido a casa dos pais de Amélia Edite Eyuva Epalanga (que constam com os números 159 e 161 da lista de suspeitos da PIDE, tendo Amélia n.º 158 e o marido o n.º 160.

Na cadeia da Bela Vista, os agentes entregaram a Amélia Edite Eyuva Epalanga folhas de papel para ela escrever o que andava a fazer e insistiram na pergunta sobre as suas habilitações escolares.

"Respondi sempre que tinha a quarta classe, chamaram-me mentirosa e levaram-me para a cidade do Huambo, meteram-me na cadeia comarcã, onde havia um forte cheiro a cigarros, eu não aguentei e desfaleci."

Os agentes da PIDE entregaram roupa prisional a Amélia Edite Eyuva Epalanga e fecharam-na isolada numa cela. Depois ela soube que a PIDE estava a prender muitas pessoas não só no Huambo, mas no Cuito, Luso-Luena. O pai de Amélia Edite Eyuva Epalanga também fazia parte do grupo de presos políticos suspeitos de terem ideais nacionalistas, onde pontificava o professor Eduardo Jonatão Cingunji, desterrado para o campo de concentração de Chão Bom, Tarrafal, em Cabo Verde, de onde só saiu em 1 de Maio de 1974, depois do 25 de Abril.

Amélia Edite Eyuva Epalanga é interrogada sobre a sua viagem ao Luena, a sua visita à irmã, o seu envolvimento num "movimento que ajudava os angolanos nas matas com comida".

"Foi em Abril de 1969, eu estava grávida do meu sexto filho, desloquei-me ao Luena e fui presa a 23 de Setembro de 1969", recorda. "Eu escrevi que tinha a quarta classe e não sabia de nada, rasgaram o papel, tornei a escrever, tornaram a rasgar, eu tinha 34 ou 35 anos."

Depois de algum tempo de isolamento, foi levada à secretaria. "Agora era um novo castigo, puseram um pau comprido no chão, mandaram-me agarrar com as duas mãos, ajoelhar-me e colocar os joelhos no pau estendido no chão, era muito doloroso e eu estava grávida, eu ouvia os gritos das outras presas que eram batidas, o castigo durou muito tempo, eu não aguentava, a dor era muito grande, então caí e desmaiei, bateram-me na cara até eu voltar a mim e gritei: "Chegou o dia da morte...", mas não disse em português, falei na minha língua materna, o Umbundu: "A Jehova a suku, ndi tungi omwenyo wange peka Liove".Os agentes ficaram furiosos porque Amélia Edite Eyuva Epalanga expressara o seu sofrimento em Umbundu, que eles não percebiam.

Então perguntaram-lhe se sabia que havia outras mulheres presas, ela não sabia. Disseram-lhe. "Há a Alice Monteiro, a Tita Malaquias, escolhe uma para te ajudar na tua cela". "Não conheço ninguém", respondeu, com medo. "Podem pôr quem quiserem."

Então a PIDE transferiu Alice Monteiro e Tita Malaquias para a cela de Amélia Edite Eyuva Epalanga. Três meses depois o grupo de prisioneiras foi transferido para o campo de concentração de São Nicolau e Amélia Edite Eyuva Epalanga foi enviada em prisão domiciliária para casa "até ter o bebé".

O agente José Reis comunicou-lhe: "A partir de hoje a tua cadeia é em casa, se não fosse o bebé hoje era o primeiro dia da tua cadeia..."

Corria 1970 e ficaram no Huambo, Amélia viria a saber que inúmeras pessoas sobretudo nas missões tinham sido presas e deportadas para campos de concentração em Angola e Cabo Verde.

Em 1974, Amélia Edite Eyuva Epalanga aderiu à UNITA e chegou a presidente da LIMA, a Liga das Mulheres, no Huambo, e continuou a leccionar na Escola n.º 32, isto já em 1975, ano em que foi para Luanda com o marido, nomeado director no Ministério da Educação.

Mas em Luanda, a guerra não dava tréguas e em Julho de 1975, o MPLA expulsa a FNLA e a UNITA e o casal teve de voltar para o Huambo e, em Fevereiro de 1976, refugiou-se nas matas com os filhos, foram a pé numa longa viagem cheia de perigos e dificuldades para o mais longe do Cuando Cubango, Catati no Delta, onde se encontraram com muitas outras pessoas, entre os quais enfermeiros, professores, agricultores, e todos construíram as suas casas de pau-a-pique. "Engraçado, tínhamos luz e água 24 horas por dia", recorda.

Anos mais tarde, em 1994, havendo uma pausa na guerra, a família viajou pelas estradas desde o Bico do Cuando Cubango até ao Bailundo, onde ficou até 1998, quando o marido, doente, foi transferido para Luanda, onde recebeu assistência médica no Hospital Militar, mas teve de ser operado ao coração em Lisboa, em 2002, vindo a falecer na capital angolana em 2008.

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