Reportagem

25 de Abril: A ONU, Mobutu e os acordos de Alvor

Rui Ramos

Jornalista

A ONU está atenta ao que está a passar-se em Portugal e a 9 de Maio de 1974 apela a Lisboa que estabeleça negociações com os movimentos de libertação africanos.

25/04/2022  Última atualização 07H20
© Fotografia por: DR

A ONU está atenta ao que está a passar-se em Portugal e a 9 de Maio de 1974 apela a Lisboa que estabeleça negociações com os movimentos de libertação africanos e seis dias depois o general Spínola é empossado no cargo de Presidente da República e finalmente a 27 de Julho é publicada a Lei n.º 7/74, que reconhece o direito à independência das "províncias ultramarinas", mas será preciso esperar até 15 de Setembro para Spínola se encontrar na Ilha do Sal, Cabo Verde, com o seu homólogo do Zaire, Mobutu Sese Seko, obtendo deste o compromisso de não intervenção no processo de descolonização de Angola. Mas Angola ainda não vive momentos de paz e a 10 de Novembro a Frente de Libertação do Enclave de Cabinda (FLEC) ataca o contingente militar português presente no território.

Entrado o ano de 1975, Portugal consegue negociar com a FNLA, o MPLA e a UNITA com vista a uma transição rumo à Independência Nacional. As negociações começam a 11 de Janeiro e terminam no Alvor, Algarve, a 15 de Janeiro, com a assinatura de um acordo que fixa a data de 11 de Novembro de 1975 para a proclamação da Independência Nacional. Em 1973, recorde-se, as relações entre o Governo do Congo-Zaire e o GRAE de Holden Roberto não eram as melhores e Mobutu chegou a montar uma operação heliotransportada para libertar alguns portugueses da base de Kinkuzu, o que enfureceu o líder da FNLA. Para tentar reconquistar algum espaço perdido junto de Holden Roberto, Mobutu autorizou a participação das Forças Armadas Zairenses ao lado do ELNA na luta no interior de Angola e "ofereceu" a Holden mais "três campos de treino em Matadi-Mayo, Mfuy e Ntampa” e 1.800 militares para "ajudarem" o ELNA a atacar Cabinda, apoiados por aviões Mirage. Por sua vez, Holden Roberto aproveitou as facilidades, para mais numa altura em que a sua organização vivia uma situação instável com contestação interna, e lançou um processo de "recrutamento forçado" junto de jovens angolanos no Zaire. Nessas rusgas levadas a efeito pelo ELNA/FNLA, terão sido raptados cerca de 1.200 jovens angolanos que foram conduzidos à força para as sedes do GRAE no Zaire. A situação provocou o regresso a Angola das populações angolanas no Zaire, como forma de fugir aos recrutadores do ELNA.

Poucos meses depois, em Fevereiro de 1974, há novos rumores de uma ameaça de invasão a Cabinda. No Conselho de Defesa Militar do dia 19 o comandante-chefe das Forças Armadas de Angola, Luz Cunha, falou da possibilidade de um ataque de grande envergadura da República do Zaire a Cabinda, enquadrando militares do ELNA e apoiada pela Líbia de Kadafi.

Em Angola, o almirante Rosa Coutinho não resiste às acusações de favorecimento do MPLA e, no dia 28 de Janeiro de 1975, é substituído pelo brigadeiro Silva Cardoso no cargo de Alto Comissário de Angola.

Finalmente a 31 de Janeiro é empossado o Governo de Transição de Angola, chefiado por um Colégio Presidencial composto por um representante de cada um dos movimentos de libertação. O Governo será presidido pelo Alto Comissário, brigadeiro Silva Cardoso, que se demitiria em 30 de Julho.

Nem três meses se passaram sobre a instalação do Governo de Transição e já Luanda era palco de frequentes e violentos confrontos entre os movimento de libertação, que se agudizam a 26 de Maio de 1975, dia em que é decretado o recolher obrigatório.

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